Recife Pop

Tuesday, May 16, 2006

Especial Post-Punk

(Ouvindo The Soft Boys - Underwater Moonlight)Neste começo de milênio tem sido muito comum ao ouvirmos uma banda nova, rapidamente percebermos a influência (em alguns casos, uma cópia barata mesmo), do som criado no final dos anos 70 e começo dos 80 por bandas como Joy Division, Gang Of Four, Wire, Pere Ubu, PIL, entre tantos outros. Franz Ferdinand, Bloc Party, Interpol, The Killers, todas elas tem o post-punk tatuado no DNA.Pode se dizer que se por um lado o post-punk surgiu dos destroços do punk rock, por outro ele veio como uma alternativa e uma libertação do 'formalismo' que o punk rock criou para si mesmo. Em 77 (quando em termos de mídia o punk rock surgiu, embora a gente saiba que a coisa vinha se desenrolando há uns 10 anos), quem tocasse mais que 3 acordes já era um 'traidor'. Com inflências de Bowie (em sua fase de parceria com Brain Eno em Berlim), Krautrock, Captain Beefheart, mas sem perder a sensiblidade pop, o post-punk sugeriu outras direções para uma música que pregava liberdade individual, mas que havia se tornado tão careta quando o 'bom e velho rock n' roll'Enquanto que o punk em sua origem nos EUA, apesar da sua dose de niilismo, tinha uma característica mais festeira (mesmo com o todo o solipsismo e comportamento auto-destrutivo de sujeitos como Richard Hell e Johnny Thunders), no Reino Unido ele encontrou e foi voz das perspectivas (ou falta delas) de uma juventude sem direção em um país socialmente aos trapos, que comia as migalhas da Família Real.O post-punk também teve seus representes nos EUA, mas foi um fenômeno britânico. Com o fim patético do Sex Pistols, Johnny Rotten, como que se quisesse deixar pra trás tudo aquilo, trocou a podridão pelo seu verdadeiro nome e passou a ser John Lydon. Uma troca de nome pode parecer bobagem, mas ao ouvir os primeiros albuns do Public Image Ltd, percebe-se que ele queria realmente uma ruptura em relação a linguagem musical dos 3 acordes. Ficava a atitude 'faça-você-mesmo', mas o som alcançava outros patamares.Formado por Lydon, pelo guitarrista Keith Levene, e pelo baixista Jah Wooble, o PIL de certa forma, trouxe a tona algumas características marcantes do post-punk. Se até então o rock, inclusive o punk, era um estilo baseado em blues, com a guitarra em primeiro plano, o PIL subverteu isso, trazendo para frente as trovoadas de Wooble. A guitarra de timbres estridentes, acordes dissonantes, e com 0% de blues Keith Levene, criava climas gélidos para a bateria e para o vocal angustiado de letras cínicas e existencias de Lydon.Outras características do som post-punk, que eram o uso do silêncio, o jogo de 'pergunta-resposta' entre baixo e guitarra, cozinha aparentemente desconjuntada, e ataques funk, foram bem desenvolvidos pelo Gang Of Four, principalmente em seus dois primeiros albuns, Entertainment! e Solid Gold. Os punks tradicionais atacavam bandas como o Gang Of Four e XTC, não só por suas experimentações musicais, mas também pela erudição que essas bandas trouxeram. As influências iam muito além das meramente musicais, e os grupos, na sua maioria formado por universitários, faziam referências às artes plásticas, à literatura, ao cinema, e ao existencialismo, enquanto que o punk buscava a cultura de rua.Na mesma época do post-punk, outros estilos surgidos a partir do punk, tinha uma relação 'promíscua' entre sim. Por exemplo, o Joy Division, que seus climas densos e letras depressivas, guitarras em forma de ondas de barulho dissonante, o baixo sombrio sobre uma batida seca, mesmo sendo um representante do post-punk, de certa forma criou a base para o que viria a ser conhecido como gótico. E o que dizer então de Bauhaus, The Cure e Siouxie & The Banshees? Essa 'prosmicuidade' ficava também bem acentuado nos EUA, onde o post-punk, ao contrário de surgir a partir da decadência do punk, foi desenvolvido paralelamente a ele por grupos como Television e Patti Smith Group. O Talking Heads trazia no som de seus primeiros albuns tanto as características musicais e erudidas do post-punk, como o acento pop da New Wave. Outro exemplo dessa relação entre post-punk e new wave é o Devo, que em seu primeiro album teve a 'audácia' de cometer uma versão para Satisfaction desprezando o clássico riff de Keith Richards.Já o Suicide, não trazia nada de pop em sua música industrial. Pelo contrario, trazia uma abordagem mais agressiva (bota agressiva nisso), assim como a No Wave de bandas como James Chance & The Contorcions e Sonic Youth. Este último trazia muitos elementos do post-punk em em seu Ep de estréia em 1982.Um dos maiores representantes do post-punk americano foi o Pere Ubu, com suas colagens bizarras, letras surrealistas, e guitarras sem elementos de blues. A experimentação do Pere Ubu, viria a ser uma das maiores inflências de Black Francis, ao formar o Pixies na segunda metade da década de 80.O fenômeno post-punk transcendeu a questão musical. Foi um fenômeno cultural muito mais amplo. Ele não teria tido força sem o surgimento de pequenos selos, o que fortaleceu o mercado independente. Além disso sua influência marcou quase tudo o que veio depois, porém não tanto quanto no momento atual. Sem o pessimismo dos originais, bandas como Art Brut, Maximo Park, entre outras surgem aos montes, e mesmo sabendo que a maioria não vai sobreviver ao secundo album, elas no mínimo deixaram as pista de dança um pouco mais divertidas. Só nos resta a questão: Década de 80; quando vão deixar que ela descanse em paz?
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